VOLTA PRA CASA
O mal mostrava-se rafratário a toda e qualquer cura, torturando e minando o pequeno corpo de Ema. Foi assim que em 23 de março resolveram levá-la para casa.
Ema sabia que faltava pouco para o grande dia, para a grande viagem, e por isso procurava aproveitar no máximo a companhia de sua mãe, confiando-lhe os pensamentos sobre as coisas do céu.
- Mamãe, fala-me de Jesus, só de Jesus - dizia.
E quando alguma amiga da mãe vinha visitá-la e começava a falar de mil coisas, Ema dizia:
- Mande-a embora, mamãe; quero ficar sozinha com a senhora para falar de Jesus.
Mas, em geral, Ema mostrava-se muito gentil com quem vinha visitá-la, agradecendo sempre.
Não gostava que a tocassem; fazia tudo por si e quando precisava ser ajudada por alguém apelava para a mãe. Certo dia foi preciso aplicar-lhe uma injeção. Já estava tudo pronto, mas quando Ema viu em seu quarto uma pessoa estranha que nada tinha que ver com o caso, recusou-se a receber a injeção. Só permitiu quando o quarto ficou livre.
Os dias passavam lentos e dolorosos. E as noites eram ainda mais penosas, intermináveis, pois é, é sábio que o pôr do sol e o aparecer das trevas constitui para o doente um verdadeiro tormento físico ou mental.
- Por que devemos sofrer mais de noite que de dia? - perguntava uma pequena holandesa que havia oferecido todos os seus sofrimentos pela conversão dos pecadores.
- Porque - respondia-lhe a mãe - é justamente de noite que se cometem a maioria dos pecados e os mais graves. Muitos frades e muitas religiosas levantam-se durante a noite para rezar por aqueles que estão pecando. É justo, pois, que também as crianças doentes ofereçam ao bom Deus seus sofrimentos para aplacar a justiça divina.
Ema oferecia-os todos porque compreendia que era necessário.
- Quem é mamãe, que está fazendo tanta algazarra lá fora? - pergunta uma noite, ouvindo na rua vozes e risadas descompostas.
- São as moças da vizinhança que voltam para casa.
Ema suspirou tristemente: - Moças? Paciência os rapazes, mas agora também as moças...
E renovou silenciosamente em seu coração a oferta amorosa que fizera.
A notícia daquela menina que em seu leito de sofrimento dispensava sábios conselhos a todos quanto recorriam às suas orações difundira-se rapidamente na cidade. Muitos iam visitá-la pelo simples prazer de ouvi-la falar sobre as coisas celestes.
Mas se alguém apresentava-se em seu quarto em trajes pouco modestos, não obtinha nem sequer uma resposta da querida menina. Foi assim que certa vez diante de uma senhora muito distinta, mas pintada e decotada, Ema recusou-se em dizer uma só palavra, enquanto pouco antes e logo depois, com outras pessoas mostrou-se muitíssimo afável e disposta a responder a tudo quanto lhe perguntavam.
Ema! A nós também tu ensinas a sublime virtude da delicadeza. Dizes que todos, se o quisermos e rezarmos, podemos nos assemelhar aos anjos, tornar-nos raios de sol e a alegria da família.
Durante os dias que permaneceu em família recebeu várias vezes a santa Comunhão, e ela mesma pediu a Extrema Unção. Certa vez, depois de ter comungado, pediu para que a deixassem sozinha. Recolheu-se com extraordinária devoção, sentada em seu leito, de mãos postas e olhos cerrados: falava com o seu Jesus.
- Mamãe - disse um dia com absoluta calma e serenidade. - Sinto que muito em breve eu irei morrer. Não seria melhor que eu fizesse uma confissão de todos os pecados que cometi durante minha vida?
A pequena ignorava, talvez, o termo "confissão geral", mas compreendera a necessidade dela e quisera praticá-la. Foi justamente depois dessa confissão que ela exclamava com toda simplicidade.
- Minha alma agora está branca como depois do batismo.
Ema não temia a morte e não gostava de ver os outros entristecerem por sua causa.
- Não compreendo porque a senhora chora tanto, mamãe - disse um dia, vendo que a mãe tinha os olhos vermelhos. Sempre que a senhora fala de mim vejo-a com os olhos cheios de lágrimas: tem medo que eu morra? Mas se eu morrer vou para o paraíso!
- Sim, é claro, mas você não pensa que deixa sua mãe chorando?
- A senhora não o deve fazer. Se quando eu estiver no céu, a senhora chorar muito, então direi a Jesus para que mande alguém consolá-la!
- Mamãe, soube que a senhora queria encurtar meu vestido branco para o verão. Não o faça, mamãe.
- Por que, Ema?
- Logo, quando irei para o paraíso, desejo que a senhora me ponha o vestido branco da Primeira Comunhão... meias brancas... o véu... e também as luvas. E gostaria também de ter os cabelos soltos como Santa Inês...
- Oh! Não chore, mamãe. Eu sei que vou morrer, mas a senhora não deve ficar triste. Após a minha morte terá mais sossego, estará tranquila. Não me disse a senhora que a dois caminhos para chegar ao céu: um recoberto de rosas, e outro só de espinhos? Pois eu escolhi o caminho de espinhos...
- Por que você não pede ao bom Jesus que a faça sofrer um pouco menos - dizia-lhe certo dia um padre que viera visitá-la. Pode-se ir ao céu também pelo caminho de rosas...
- Não Reverendo, eu quero ir pelo caminho de espinhos.
E tinha razão a pequena Ema; o caminho de espinhos é bem mais doloroso, mas também mais seguro e reto; foi este o caminho escolhido por Jesus, pela Virgem, pelos Santos.
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